
Vitória de Natnael Berhane (Europcar) na etapa rainha da Volta à Turquia é sinal de crescimento do ciclismo africano. O comentador Gonçalo Moreira analisa o fenómeno e antecipa uma época inesquecível de África no pelotão internacional.
O arranque da temporada trouxe várias notas. O regresso em força dos colombianos e a confirmação dos talentos da nova geração como Richie Porte, Daniel Martin, Andrew Talansky e Rui Costa são constatações evidentes, mas há outra nota que pode tornar 2013 num ano histórico.
Para África são tempos de afirmação. MTN Qhubeka tornou-se a primeira equipa africana a obter uma licença Continental Profissional, estreou-se em provas do WorldTour (no Tirreno-Adriático) e brilhou com a vitória num dos monumentos do ciclismo quando Gerald Ciolek ganhou a Milão-Sanremo. O futuro pode levar a equipa à elite, isto se tivermos em conta que o patrocinador da MTN é um gigante sul-africano das telecomunicações com forte presença no continente.

Faltava um triunfo individual e esse chegou na etapa rainha da Volta à Turquia. Foi aí que um jovem de nome Natnael Berhane surpreendeu ao conquistar a montanha de Elmali (1850 metros de altitude) e assim dar à Europcar uma vitória importante numa prova de categoria 2.2 da UCI.
Neo-pro da equipa francesa, Berhane tem 22 anos e é natural da Eritreia. Esta foi a primeira vitória fora de África, continente do qual é campeão de estrada e de contrarrelógio por equipas. Este é um talento com raízes na Europa, já que em 2011 Berhane passou a viver no Centro Mundial do Ciclismo situado em Aigle, na Suíça, no mesmo complexo onde está a sede da UCI, entidade patrocinadora deste projeto que visa dar oportunidades a talentos de regiões onde a modalidade está pouco desenvolvida. Além disso, já em 2012 Natnael Berhane tinha tido uma primeira experiência nas estradas europeias depois de ter passado um mês a estagiar com a Vendée U-Pays de la Loire, equipa sub-23 da Europcar.
AFRICANOS COM DIMENSÃO EUROPEIA
Curiosamente os jovens talentos africanos têm tido uma relação próxima com Portugal, ou não tivessem dois deles ganho uma etapa cada na edição passada da Volta. Falamos dos sul-africanos Jay Robert Thomson (atualmente na MTN-Qhukeka) e Reinardt van Rensburg (atualmente na Argos-Shimano), dois exemplos de ciclistas rápidos que deram um salto em termos de equipa em relação a 2012.

Num outro contexto há outro corredor oriundo da Eritreia que, tal como Natnael Berhane, anda bem na alta montanha. Daniel Teklehaimanot já vai na segunda temporada com a Orica-GreenEdge e deixou boa imagem na Volta à Polónia, isto além de ter feito a Vuelta. Teklehaimanot também passou pelo Centro Mundial do Ciclismo da UCI e além de ser um escalador interessante tem vindo a dominar o contrarrelógio em África com títulos continentais em 2010, 2011 e 2012.
Há ainda notas relevantes do Norte do continente, com a recente incorporação de Tarik Chaoufi na Euskaltel-Euskadi. É certo que foram os pontos WorldTour a abrir as portas ao marroquino, mas todos os pretextos são bons para dar oportunidades ao vencedor do Africa Tour do ano passado.
Claro que neste exercício de lógica há um talento acima de todos e que até pode dar a África a vitória na Volta a França. Chris Froome cresceu entre o Quénia e a África do Sul, salientando sempre que, mesmo representando o Reino Unido em provas internacionais, eram as raízes africanas que mais lhe apelavam.
Por tudo isto a questão fica no ar: será 2013 o ano de África no ciclismo de elite?
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